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COMO A IA ESTÁ RECONFIGURANDO O DESENVOLVIMENTO DE SOFTWARE

  • Foto do escritor: Marcos Bozza
    Marcos Bozza
  • 23 de mar.
  • 5 min de leitura

O que está acontecendo no mercado dos EUA e o que isso sinaliza para o Brasil



Um mercado em movimento e sinais que não podem ser ignorados


Nas últimas semanas, o debate sobre o impacto da IA no desenvolvimento de software deixou de ser especulativo e passou a ser sustentado por movimentos concretos no mercado americano.


O lançamento do playbook de modernização de código da Anthropic trouxe visibilidade para o uso de IA em sistemas complexos, especialmente em linguagens como COBOL. Ao mesmo tempo, ferramentas como Claude Code e Cursor IDE vêm sendo adotadas rapidamente por desenvolvedores e empresas. Em paralelo, movimentos organizacionais — ajustes de eficiência em empresas como a Block Inc., que reduziu significativamente sua equipe de engenharia — passaram a ser interpretados como sinais de uma possível reconfiguração do trabalho com desenvolvimento de software.


Mais do que eventos isolados, esses sinais apontam para uma mudança estrutural: o desenvolvimento de software não está sendo substituído, mas profundamente transformado.



O que de fato mudou: cinco frentes de impacto da IA



Do autocomplete para agentes: uma mudança silenciosa, mas profunda


O primeiro impacto da IA no desenvolvimento foi amplamente difundido por ferramentas como o GitHub Copilot. Segundo dados divulgados pelo próprio GitHub (https://github.blog/2023-02-14-github-copilot-x-the-ai-powered-developer-experience/), desenvolvedores chegam a completar tarefas até 55% mais rápido com suporte de IA.

Mas o que está emergindo agora vai além do conceito de “autocomplete avançado”.


Ferramentas mais recentes são capazes de interpretar contexto amplo, executar tarefas completas e iterar sobre soluções. Esse movimento marca a transição para o que já vem sendo chamado de codificação agêntica.


Na prática, o papel do desenvolvedor começa a mudar. Escrever código deixa de ser a atividade central. O foco passa a ser orientar, revisar e tomar decisões sobre o que está sendo produzido.


Surge, então, um novo modelo de trabalho: a IA executa, mas o humano dirige.



Testes e depuração: ganhos reais, mas não absolutos


Outro avanço evidente está no uso de IA para testes e debugging. Modelos atuais conseguem gerar testes automaticamente, sugerir cenários de borda e até explicar erros complexos em linguagem natural.


Estudos recentes indicam ganhos relevantes de produtividade. Um relatório da McKinsey & Company (https://www.mckinsey.com.br/capabilities/tech-and-ai/our-insights/unleashing-developer-productivity-with-generative-ai) aponta que a IA generativa pode aumentar a produtividade de desenvolvedores entre 20% e 45%, especialmente em tarefas como escrita de código, documentação e testes.


No entanto, há uma nuance importante que raramente aparece nas narrativas mais otimistas. Esses ganhos são reais, mas não são completos. A IA gera testes com base em padrões e no comportamento aparente do código. Ela não compreende, de forma plena, a intenção do sistema ou o contexto de negócio. Isso significa que é possível aumentar a cobertura de testes sem necessariamente aumentar a qualidade real do software.


Na prática, isso já começa a revelar um novo tipo de problema: sistemas que passam por mais testes, mas continuam incorretos do ponto de vista funcional. O que se automatiza com eficiência é a verificação do código. A validação do problema — se aquilo que foi construído faz sentido — continua dependendo de julgamento humano.



Prototipagem acelerada e o deslocamento do gargalo


A velocidade de criação de software também mudou drasticamente. Hoje, equipes conseguem construir protótipos funcionais em questão de dias, testar hipóteses rapidamente e iterar com baixo custo.


Isso tem impacto direto no ciclo de inovação, especialmente em startups. O custo de testar ideias caiu de forma significativa. Entretanto, novamente, o efeito mais relevante não está apenas na aceleração, está no deslocamento do gargalo.


Construir software deixou de ser caro. Validar continua sendo desafiador. Se a validação não evolui no mesmo ritmo, o resultado não é necessariamente mais inovação, mas maior volume de soluções pouco maduras sendo colocadas em produção.



Times menores e mais produtivos?


Um dos temas mais sensíveis nesse debate é o tamanho das equipes de engenharia. Casos recentes no mercado americano têm alimentado a narrativa de que a IA permitirá operar com times menores.


Essa leitura, embora parcialmente verdadeira, é incompleta. O que está acontecendo não é apenas redução. É reconfiguração. Com a IA absorvendo tarefas mais operacionais, o peso do trabalho se desloca para atividades que exigem julgamento, entendimento de contexto e capacidade de decisão. Isso muda o perfil do profissional, que gera mais valor.


O desenvolvedor que atua como executor — aquele que recebe uma especificação e a transforma em código — tende a perder espaço. Essa é precisamente a função que a IA consegue reproduzir com mais eficiência.


Por outro lado, ganha relevância o engenheiro de software no sentido mais completo do termo: alguém que entende o problema, avalia trade-offs, toma decisões arquiteturais e consegue orientar a IA, além de identificar quando o resultado gerado está incorreto, mesmo que superficialmente pareça válido.



Novas habilidades em ascensão


Com essa mudança, o conjunto de habilidades valorizadas também começa a se deslocar.

Clareza na definição de requisitos passa a ser central. Saber o que pedir se torna mais importante do que saber como implementar. O pensamento sistêmico — a capacidade de entender como diferentes partes de um sistema se conectam — ganha peso. A revisão de código deixa de ser apenas sintática e passa a ser comportamental: o sistema está fazendo o que deveria fazer?


Além disso, surge uma nova competência: a capacidade de estruturar prompts com o mesmo rigor de uma especificação técnica.


Essas mudanças indicam uma transição importante. O diferencial competitivo deixa de ser a velocidade de implementação e passa a ser a qualidade das decisões.



O novo gargalo: o sistema, não o código


Talvez a mudança mais relevante e menos evidente seja esta: escrever código deixou de ser o principal limitador do desenvolvimento.


Com a IA, a capacidade de produção aumenta significativamente, mas isso não significa que o sistema como um todo acompanha essa velocidade. O gargalo se desloca para outras etapas: validação, testes reais, integração e operação. Se esses processos não evoluem no mesmo ritmo, o efeito não é aceleração. É apenas a mudança do ponto de estrangulamento.


Esse é o ponto central: a IA não é apenas uma ferramenta de produtividade. Ela é um fator de reconfiguração do sistema de desenvolvimento. Ela amplia a capacidade individual, mas não aumenta automaticamente a capacidade organizacional de absorver essa produção.



Estratégia continua sendo o fator crítico


Apesar dos avanços técnicos, um ponto permanece constante: a maior dificuldade não está na implementação e sim na definição do problema. Sem clareza de requisitos, dos objetivos de negócio e da arquitetura, a IA apenas acelera a execução de decisões equivocadas.



O que isso sinaliza para o Brasil


Embora o movimento esteja mais avançado nos Estados Unidos, seus efeitos devem se manifestar rapidamente no Brasil.


Algumas implicações:

  • pressão por maior produtividade em times de engenharia

  • revisão de estruturas de equipe

  • adoção crescente de ferramentas de IA

  • necessidade de evolução em processos, não só tecnologia


Empresas que se anteciparem terão vantagem. As que tratarem IA apenas como ferramenta isolada podem enfrentar aumento de complexidade, mais retrabalho e perda de controle sobre sistemas.



Mais do que ferramentas, é uma questão de direção


A experiência recente do mercado americano sugere que a adoção eficaz de IA em desenvolvimento não depende apenas de ferramentas, depende de direcionamento.

Empresas que estão avançando de forma consistente são aquelas que combinam tecnologia com decisões estruturais bem fundamentadas, desde arquitetura até governança.


É nesse contexto que a Axoma tem atuado. Acompanhando de perto essa transformação, tanto em projetos com clientes quanto internamente, apoiamos empresas nesse processo de transição, conectando decisões técnicas com objetivos de negócio e ajudando-as a incorporar IA sem perder controle sobre seus sistemas.





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